Darlene Love

Vocês conhecem Darlene Love?

Eu a conheci há poucos anos atrás, quando assisti pela primeira vez o maravilhoso “20 feet from stardom  (A um passo do estrelato)”, que ganhou o Oscar de melhor documentário em 2014, e é definitivamente um dos meus documentários favoritos. Se você ainda não assistiu, não deixe de ver, é sensacional e tem no Netflix.

Já escrevi aqui várias vezes sobre o meu amor e admiração sem limites por backing vocals. Esse documentário mostra a realidade de algumas das backing mais emblemáticas da história da música, e como alguns dos maiores hits do mundo da música não fariam sentido nenhum sem elas.

Uma delas, é a sra. Darlene Love. Embora esse documentário trate de várias performers e de toda a realidade da cena das backing na indústria músical, a Darlene ganhou muito destaque nele. No filme, Darlene conta um pouco sua história incrível de sucesso, tragédia e superação. Além claro, de nos presentear com performances incríveis.

Eu sou tão apaixonada por ela, que me sinto na obrigação de compartilhar suas apresentações com quem não conhece. A energia dela no palco é uma coisa inédita, na minha opinião. Não tem ninguém igual. Tenho a sensação que sempre que ela está cantando ela tá tão feliz, tão grata, tão ciente do talento incrível que ela tem, que acho sempre comovente.

Sempre que vejo pelas redes sociais, portais de notícia e etc. histórias incríveis de superação, de gente se reinventando, dando novos rumos pra vida, começando de novo, lembro da Darlene Love. Vou tentar resumir aqui brevemente o que aconteceu com ela, mas sigo recomendando que você assista o 20 feet from stardom.

Como muitos outros que passaram aqui, Darlene começou a cantar no coral da igreja. Com sua voz incrível, chamou atenção. Então, em 1957 ela entrou pro seu primeiro grupo musical, as The Blossoms, que segundo Darlene, eram responsáveis por 99% dos backing vocals de músicas famosas naquela época, de artistas como por exemplo Sam Cooke, Cher, Elvis Presley, Dionne Warwick, Beach Boys, e muitos outros.

Em 1962 ela começou a trabalhar com o famoso produtor Phil Spector, e foi aí que começou sua derrocada. Phil Spector lançou várias músicas em que era Darlene quem cantava, porem ele creditava a outras cantoras/grupos, nunca revelando quem era a real voz por traz daqueles sucessos. Em 1962 o single “He´s a Rebel, gravado por Darlene estourou. Mas o problema é que ele foi lançado como se fosse da banda The Crystals, sem dar nenhum crédito a Darlene. Isso obviamente gerou uma briga entre Darlene e Phil, e assim que seu contrato com ele terminou, Darlene se viu finalmente livre e foi para outra gravadora, na tentativa de finalmente ter um disco seu gravado, com todos os devidos créditos, e a chance de sucesso.

Porém essa liberdade não durou muito tempo. Em poucos meses, essa nova gravadora vendeu seu contrato de volta para os poderes de Phil Spector. E foi assim que a carreira de Darlene acabou. Como ela estava sob o poder de Phil, ela simplesmente não gravava nada e não tinha nada lançado. Dessa forma, ela seguiu apenas como backing vocal, para artistas como Dionne Warwick.

No final da década de 1970, os artistas já não tinham mais muito interesse em backup singers, então o que aconteceu com a Darlene? Virou faxineira.

Isso mesmo. Ela desistiu de perseguir o sonho de cantar, e virou faxineira. Até que um dia, enquanto limpava o banheiro de outra pessoa, ela ouviu no rádio o single Christmas (Baby Please Come Home), que ela havia cantado em 1963 e novamente havia sido creditado a outra pessoa, e então ela decidiu que aquilo não era certo, e ela deveria voltar a cantar.

E foi isso aí. Com mais de 40 anos de idade, por volta de 1982-1985, ela voltou a se apresentar, e voltou a fazer sucesso. Em 1986, ela foi convidada a apresentar a música Christmas (Baby Please Come Home),no programa Late Show with David Letterman, e o apresentador disse a ela que essa era sua música favorita de natal. Desde então, Darlene se apresentou por 25 anos consecutivos no programa com essa música, e se comprometeu a não cantá-la em outros programas de TV.

Em 1987 ela apareceu no filme Máquina Mortífera como Trish Murtaugh, esposa do Roger Murtaugh, e daí em diante, sua carreira só decolou.

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Em 2011, ela foi incluída no Rock and Roll hall of fame, com um discurso emocionado – em que, acredite, ela agradece muito Phil Spector – e uma linda apresentação com Bette Midler e Bruce Springsteen, que deixo aqui pra quem quiser assistir:

E no ano de 2014 ela fez sua última apresentação de natal, maravilhosa, no Letterman. Só foi a última porque o David Letterman se aposentou em maio de 2015. Se não fosse por isso, acredito que ela teria cantado até o último natal, sem dúvidas. Dá uma olhada, e só pra lembrar, aqui ela estava com 73 anos. É isso mesmo que você leu, setenta e três!

Pra fechar com chave de ouro, vou deixar aqui o momento em que 20 feet from stardom ganhou o Oscar, e a Darlene sobe junto ao palco, e pra agradecer, entoa o hino de louvor “His eye is on the Sparrow” , em que ela começa cantando “Eu canto, porque eu sou feliz, eu canto porque sou livre…”

Ainda hoje Darlene se apresenta ao vivo, tem canal no Vevo, e pelo que vi ela lançou um disco em 2016. Que energia, não é? Acho grandioso da parte dela que sempre que questionada sobre Phil Spector ela elogia, falando que não teria uma carreira se não fosse por ele. Sempre em suas entrevistas ela também fala muito sobre sonhos, objetivos, e manter o foco apesar das adversidades. Se você gostou da indicação de hoje, recomendo procurar entrevistas dela, são sempre legais de assistir.

Depois dessa, eu diria…que nunca é tarde pra recomeçar?